“Conje” e “peleumonia”: quando a variação linguística vira polêmica – UOL

“Conje” e “peleumonia”: quando a variação linguística vira polêmica – UOL

*Por Henrique Braga, professor do Anglo Vestibulares

Em discurso proferido na CCJ, o ministro Sérgio Moro cometeu um inusitado desvio de pronúncia: em vez de dizer “cônjuge” (termo formal para “marido” ou “esposa”), o ex-juiz deixou escapar não uma, mas duas vezes o termo “conje”. A internet, como você deve imaginar, não perdoou, e até hoje circulam memes zombando do magistrado.

Em rodas mais atentas às relações entre língua e sociedade, o episódio faz surgir um questionamento: teria o ministro sido vítima de preconceito linguístico?

Preconceito linguístico

Em uma obra clássica sobre o tema, “Preconceito linguístico – o que é e como se faz”, o linguista Marcos Bagno discute a persistência do preconceito linguístico no Brasil. Para o autor, que escreveu o livro em 1999, o país havia aprendido a identificar e repudiar outros tipos de discriminação, porém ele ainda via como frequente a prática da exclusão daqueles que adotavam formas linguísticas marcadamente populares, distantes do que rege a chamada “norma culta”, ou norma-padrão.

Passados 20 anos, pode-se advogar que tenha havido avanços, mesmo que tímidos. Lembro um episódio, ocorrido no ano de 2016, que talvez ilustre uma mudança nos humores: um médico usou as redes sociais para debochar de um paciente humilde, que havia dito os termos “peleumonia” (para “pneumonia”) e “raoxis” (para “raio-x”). A repercussão foi extremamente negativa, e o médico, demitido.

É estranho ver as mesmas redes acolhendo a “peleumonia” e repudiando o “conje”? Arrisco dizer que não.

Variantes linguísticas: identidade e situação

Entre as habilidades avaliadas na prova de linguagens do Enem, duas tratam explicitamente da variação linguística (para os curiosos, são as habilidades 25 e 26). Em linhas gerais, espera-se que o concluinte do ensino médio identifique duas coisas: de um lado, que o momento histórico, o estrato social e a região influenciam o modo como cada grupo de falantes utiliza o idioma; de outro, que o grau de formalidade e a modalidade (oral ou escrita) orientam o falante em suas escolhas linguísticas.

Fazendo uma síntese, pode-se dizer que é como se cada comunidade de falantes tivesse o seu próprio português, ou seja, a sua variedade linguística, que é parte de sua identidade de grupo. Isso não significa, porém, que os falantes usem essa variedade sempre do mesmo jeito: a oralidade é diferente da escrita e, além disso, situações formais exigem um registro mais formal.

Questão de adequação

Para explicar o repúdio ao “conje” e o acolhimento à “peleumonia”, pode-se recorrer à ideia de adequação.

Sérgio Moro, quando cometeu o deslize, estava em uma situação formal, falando como ministro da justiça e adotando um termo típico do jargão jurídico. Era esperado que dissesse “cônjuge”.

Já o paciente que mencionou a “peleumonia” era um cidadão humilde, pouco escolarizado e, não bastasse, estava fragilizado em busca de atendimento médico. Ainda que não desejável, era compreensível que ele recorresse a uma forma distante do uso padrão.

Relacionando os dois casos, vemos que as formas linguísticas, para além de suas características fonéticas, morfológicas ou sintáticas, assumem também valores sociais, os quais são reconhecidos pelos usuários da língua. Em vestibulares modernos, é importante estar atento para essas correlações entre língua e sociedade.

Fonte Oficial: UOL.

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